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HOME > ENTREVISTAS > A MISSÃO DA GOOGLE É ORGANIZAR TODA A INFORMAÇÃO DO MUNDO, DIZ NELSON MATTOS
Nelson Mattos é o único brasileiro nos altos escalões da Google. Como vice-presidente de engenharia do buscador para a Europa, Oriente Médio e África, ele chefia 500 engenheiros espalhados em doze capitais européias.
Uma curiosidade de jornalista: qual foi o primeiro computador que você teve?
N.M.: O primeiro computador que eu trabalhei foi no período da ditadura militar, quando o Brasil estava tentando criar uma indústria nacional. Era um computador da Nixdorf, de tecnologia alemã e produzido no Brasil. Era um computador médio, pois ainda não existiam PCs. Ele rodava o basic, a linguagem principal de computação, e o assembler. Nessa época eu estava estudando na Universidade do Rio Grande do Sul.
Ao se formar, por que você saiu logo do Brasil?
N.M.: Eu saí do Brasil imediatamente ao terminar o mestrado. Foi em fevereiro de 1984. No final de março vim para a Alemanha com o objetivo de fazer o doutorado. O plano inicial era retornar ao Brasil depois de quatro ou cinco anos do doutorado. Mas ai eu recebi uma proposta de ficar trabalhando como professor na universidade alemã. Então eu pensei: por que não? Essa era uma oportunidade única de continuar pesquisando minha área. Era um trabalho excelente. A Universidade de Kaiserslauten havia recebido um financiamento do governo alemão para estender o meu trabalho de doutorado. Para mim foi uma oportunidade única de liderar um grupo enorme na minha área de pesquisa.
E ao terminar o doutorado quais eram as perspectivas de trabalho?
N.M.: Depois de três anos fazendo isso, eu e minha família já estávamos de malas prontas para voltar ao Brasil, onde eu já havia me inscrito para um concurso de professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Então eu recebi uma proposta de passar dois anos no laboratório de pesquisa da IBM na Califórnia que, na época, era o "must" da área de pesquisa em banco de dados. Eu e a minha esposa achamos que era uma idéia magnífica passar um ou dois anos fora a caminho do Brasil. Aconteceu que esses dois anos viraram dezesseis...
Em artigo na imprensa especializada li que você chegou a ter treze patentes no tempo da IBM. É verdade?
N.M.: Sim. Até entrar na Google, eu trabalhei a minha carreira toda com banco de dados. A maioria das minhas patentes é nessa área. Essa indústria se expandiu vertiginosamente nos últimos anos, sobretudo em áreas como "business intelligence", "analytics" ou "content management". A metade dos 16 anos na IBM foi especificamente dedicada a ela. Eu fui parte do grupo que desenvolveu o DB2 para plataformas baixas, ou seja, o grupo que criou o banco de dados da IBM em plataformas baixas para Unix e Windows. Mas depois disso saí e comecei a trabalhar em outras áreas dentro do ramo do que hoje em dia se chama "information management", mas não especificamente em bancos de dados.
Na IBM você chegou ao cargo de vice-presidente de tecnologias de usuários e informação na área de pesquisa da IBM. Qual era o seu trabalho?
N.M.: Dos últimos seis anos de trabalho na IBM, eu ocupei cinco montando um "business" para a empresa: o portfólio de "informação e integração", onde criamos vários produtos internos e fizemos várias aquisições como a da Accenture, um negócio de mais de um bilhão de dólares que foi costurado por mim. Foi no último ano na IBM que eu voltei para a pesquisa. Eu era responsável pela metade de toda a pesquisa nos laboratórios da IBM no mundo inteiro na área de software. Era a área de "information management", "tecnologias web", motores de busca e outros.
E como você foi parar na Google?
N.M.: Eu fui contatado pela Google, que mostrou seu interesse em que eu viesse para a Europa chefiar os centros de pesquisa e desenvolvimento na Europa, Oriente Médio e África. Obviamente, sendo Google, me chamou muito a atenção. É uma estrutura empresarial completamente diferente. O que também me chamou atenção foi a possibilidade de assumir um cargo de liderança fora dos Estados Unidos. Aí eu conversei com a empresa a acabei aceitando a proposta.
Na IBM você trabalhou intensamente em uma área da informática muito importante chamada "web semântica". O que isso significa?
N.M.: Quando voltei a pesquisar na IBM, um dos projetos nessa área era o "WebFountain". Ele também estava sob minha responsabilidade. A IBM tem vários projetos em web semântica. No caso do WebFountain, o objetivo era analisar todo o conhecimento que está disponível na Internet e, com isso, tentar descobrir tendências. Um exemplo: se você é um artista que lançou um novo CD e quer tentar descobrir o que os usuários pensam a respeito do trabalho. Se você conseguir analisar um grande volume de dados que está disponível em blogs, páginas da Internet, nos "chat rooms" e coisas do gênero, então você terá condições, de uma forma geral, de saber quais são as tendências, ou seja, o que está se falando sobre um determinado tema.
Trata-se então de uma tecnologia que cruza todas as informações disponíveis na Internet para tirar conclusões?
N.M.: Exatamente. O Fountain era um projeto que tinha, do ponto de vista de processamento de dados, a necessidade de avaliar um volume extremamente grande. Imagine a quantidade de dados que está hoje disponível na Internet...
Foi essa experiência e conhecimentos que tornaram você uma pessoa interessante para a Google?
N.M.: O negócio que eu montei para a IBM nos meus últimos anos de trabalho, o setor de informação e integração, começou a se expandir na área de busca e análise de dados não estruturais. A web é formada por dados não estruturais, ou seja, texto, vídeo, imagens ou "blogging". Todos eles têm uma estrutura que não é rígida como nos sistema de bancos de dados relacionais. Então eu já comecei a trabalhar nessa área. Nós chegamos até a lançar pela IBM o "Information Integration Omnifind", um produto na área de busca para o ambiente empresarial, não o ambiente de usuário final que a Google trabalha. Quando fui para área de pesquisa, então me envolvi ainda mais com o tema. Foi aí que eu comecei a me envolver tecnicamente com áreas em que a Google já trabalhava. Obviamente que a Google não está só voltada para a Internet, de uma maneira geral, mas dado o volume de dados encontrados na web, o volume de consultas só na parte de busca já é algo fenomenal. Primeiro, a quantidade e diversidade de dados e, segundo, o volume de consultas de usuários no mundo inteiro, que lançam milhões de consultas a cada segundo.
O cargo de vice-presidente de engenharia da Google para Europa, Oriente Média e África tem a ver com a estratégia de regionalização da Google?
N.M.: O Google trabalha no mercado consumidor - se você olhar, todos os produtos da Google estão voltados para o usuário final como os produtos de busca, o "Google Maps" ou o "Google Earth". Quem interage com esses produtos é o usuário final. Obviamente o usuário final é diferente em cada lugar do mundo. O tipo de consulta que os brasileiros fazem é diferente do tipo de consulta que os suíços fazem na Suíça. O comportamento dos russos ou chineses também difere. Por isso é importante que a Google tenha a percepção das diferenças que existem entre seus usuários. Por exemplo: a gente sabe que o adulto no norte da Europa lê, em média, três jornais por dia. Já na Suíça essa média é de um jornal por dia. Obviamente a maneira pela qual uma pessoa da Noruega utiliza a internet é muito diferente da maneira que um suíço utiliza.
É por isso que a Google desenvolve seus produtos em diferentes países?
N.M.: Sim. Desde o início, a Google tinha a visão de que para você poder criar produtos que são relevantes a cada usuário no mundo inteiro, é necessário ter engenheiros de desenvolvimento que tenham um bom conhecimento do comportamento e das necessidades de cada usuário. E isso é impossível de fazer se você tem todo o desenvolvimento centralizado na Califórnia. Afinal, o pessoal que está sentado na Califórnia vai obviamente entender muito bem as necessidades da população americana. Mas você acredita que eles entenderiam a necessidade dos brasileiros, dos chineses ou dos noruegueses? Obviamente que não! Por isso, já há bastante tempo, a Google criou essa estratégia de abrir centros de pesquisa e desenvolvimento em vários países do mundo.
Qual é o papel dos diferentes centros de pesquisa espalhados no mundo dentro da estratégia da Google?
N.M.: A idéia, quando se começou a criar esses centros, é que cada um deles teria duas funções: trabalhar em produtos e iniciativas que vão ter impacto global - por exemplo, o Google Maps, cujo grande parte do desenvolvimento é feito em Zurique, mas que é utilizado no mundo todo - e, finalmente, adaptar os produtos da Google, desenvolver novas extensões ou mesmo novos produtos que são específicos para um mercado local. Um exemplo disso é o "Google Transit", uma extensão no "Google Maps" que permite obter informações sobre meios de transportes públicos para ir de um local ao outro, seja de ônibus, trem, metrô ou caminhando. Obviamente essa é uma extensão extremamente popular na Europa. Inclusive, recentemente, a gente lançou uma extensão que reúnes todos os dados das companhias de trens e bondes aqui da Suíça.
Mas por que alguns produtos da Google "pegam" em alguns mercados e outros não?
N.M.: Nós concluímos que muitas dessas extensões, feitas para um mercado local, podem ter aplicação em outros lugares. Se você pegar o "Transit", que é extremamente utilizado em alguns países da Europa, ele também é utilizado nos Estados Unidos, sobretudo em grandes cidades com bons sistemas de transporte. Porém se você olhar as áreas rurais nos EUA, praticamente ninguém utiliza esse serviço.
Essa lógica explica por que o "Orkut", uma rede social criada por um funcionário de vocês nos Estados Unidos, um informático turco, só ter sucesso no Brasil?
N.M.: Sim, esse é um bom exemplo. Trata-se de um produto que teve uma receptividade extremamente forte no Brasil, mas também na Índia. Essa situação cria um círculo de desenvolvimento interessante. Nesse caso, poderíamos falar no ciclo de desenvolvimento de produtos, algo que é extremamente curto na Google. Ele vai de dois a três meses. A idéia é lançar alguma coisa no mercado e ver como os usuários vão reagir. Pelo fato de trabalharmos diretamente com o usuário final, ao lançar um protótipo, algo simples, podemos saber imediatamente se ele está gostando ou não e o que está faltando para melhorar o produto. Isso cria novos requerimentos que são colocados no desenvolvimento. Em três meses eu posso lançar mais alguma coisa e satisfazer aquelas exigências. Com isso eu recebo mais feedbacks e assim continua a história.
Quer dizer que o próprio usuário termina participando no desenvolvimento dos produtos da empresa?
N.M.: O fato de o Orkut ter sido bastante popular no Brasil fez com que a gente recebesse cada vez mais feedbacks da população brasileira. Isso fez com que ele se tornasse cada vez melhor para aquele ambiente no Brasil. Porém o Orkut não se tornou popular em outros países. Isso é um exemplo bem interessante, porque mostra a importância de você ter centros de desenvolvimento no mundo todo. Eu até diria que essa é uma das grandes diferenças entre a Google e outras empresas com centros de desenvolvimentos centralizados. Com isso temos condições de criar produtos específicos, que possam satisfazer as exigências de cada usuário e entender culturalmente o que aquela população precisa.
Assim como a Internet, a Google também parece ser uma empresa em constante transformação. Quais são os futuros desafios?
N.M.: Nosso objetivo, a missão da Google, é organizar toda a informação do mundo. Em segundo lugar, fazer com que essa informação esteja disponível a qualquer usuário e que seja útil para ele. Trata-se de um desafio, pois nem toda a informação no mundo é baseada em texto. O volume de imagens, vídeos e áudios que cresce na internet é algo fenomenal. Apesar de dispormos de produtos que já têm condições de buscar imagens, textos, etc com uma única consulta, ainda temos muitas desafios pela frente. No "universal search" da Google, por exemplo, com uma única consulta você pode receber resultados que são textos, páginas web, imagens, vídeos, áudios e assim por diante.
Continuando a entrevista, Nelson, encontrar imagens na Google é algo ainda bastante complicado. Como é possível calibrar um motor de procura para encontrar dados tão diversos?
N.M.: No momento os usuários estão satisfeitos com a interface que oferecemos na Google. Mas se você começar a pensar que, ao longo do prazo, o volume de imagens e vídeos vai se tornar cada vez maior na web, podemos imaginar um momento em que o usuário queira uma interface diferente para a sua busca. E se você tem uma fotografia em mãos e quiser saber se existem outras fotos parecidas com ela? Ou se você tem uma foto da Torre Eiffel e necessitar de outras, pois está fazendo uma reportagem sobre o tema? Seria muito mais fácil se o usuário pudesse dizer: 'busque as fotos parecidas com esta'. Essa interface seria completamente diferente, porque você não vai escrever em textos o que está procurando. Por isso é que ainda existe muita pesquisa nessa área. Não apenas para entender melhor a semântica desses dados, que são ainda menos estruturados, mas também para tentar entender qual é a melhor interface para o usuário ou qual a melhor maneira de expressar o que você está procurando na Internet.
Isso significa que a famosa janela inicial da Google, com apenas um formulário e os botões, pode mudar um dia?
N.M.: Exatamente. O que eu imagino no futuro é ter uma interface mista. Por exemplo, eu posso iniciar uma pesquisa escrevendo textos como 'Torre Eiffel'. Ai eu recebo páginas na web, textos e fotografias da Torre Eiffel. Aí eu poderia chegar e dizer assim: 'eu gosto desta fotografia', seja porque ela está próxima ou porque feita à noite. Então eu inicio outra busca dizendo: 'procure agora todas as outras fotografias que são parecidas com essa'. Nesse caso eu não escreveria mais em texto, mas mostraria um exemplo e usaria este como base para uma nova consulta. Existem várias possibilidades com as quais esse desenvolvimento vai acontecer. Tudo vai depender do usuário. Não sabemos se, com o crescimento do volume de dados nessa área, se é esse o tipo de consulta que o usuário vai querer.
O que falta para a Google se tornar um espécie de "Oráculo", compreendendo as perguntas e dando as respostas exatas para elas?
N.M.: Se você pensar há dez ou quinze anos atrás, quando se começou com os produtos de busca na Internet, o objetivo inicial era de encontrar um site ou um determinado documento. Hoje em dia, o usuário é muito mais sofisticado e começou a querer poder utilizar a mesma interface para procurar respostas às suas perguntas. Até mesmo pelo volume de dados que já está disponível, pela sua excelente qualidade e o número de conhecimentos disponíveis graças à digitalização fenomenal dos últimos anos. A Google já tem algumas coisas nessa área.
Um exemplo disso é quando pedimos para o motor de busca da Google fazer cálculos matemáticos?
N.M.: Sim. Ele faz cálculos matemáticos ou é até capaz de responder perguntas simples como informações sobre vôos para tal lugar. Obviamente se você pergunta isso na Google, ela tem condições de saber que você não está interessado em ver documentos que tenham a palavra 'vôo' e 'Chicago', mas sim em ter informações sobre os vôos para Chicago. Mas um dos grandes desafios é o contexto, principalmente no início do diálogo, onde o usuário se conectou e colocou uma pergunta. O problema é que você não sabe quem é o usuário, você não tem o histórico, você não sabe em que contexto. Um exemplo: se ele coloca na primeira consulta a palavra em inglês 'rock'. Será que ele é um geólogo, que quer saber sobre pedras? Ele pode também ser um músico, que está querendo saber mais sobre o tema. O problema é que você não tem nenhum contexto. Obviamente, quando damos os resultados da consulta e vemos que ele começa a clicar em documentos relacionados a pedras, então, ao usuário fazer uma nova pergunta, podemos criar um contexto para o qual as perguntas estão sendo feitas. Este é um grande desafio.
Mas quem garante que as informações obtidas são dignas de crédito? Afinal, a Google não produz muitas dessas informações. Só mostra o caminho.
N.M.: O segundo desafio - e eu diria que nessa área a gente já fez um enorme progresso - é a qualidade dos dados. Como é que você sabe que um determinado dado é mais correto, mais confiável do que outro dado? Obviamente se você só está procurando documentos, a confiabilidade dos dados não é tão importante, porque eu te entrego os dois documentos. Mas no momento que você passou a fazer uma pergunta e quer uma resposta, a confiabilidade dos dados passa a ser extremamente importante. Afinal, você quer basear aquela resposta nos dados que são confiáveis. Por isso é fundamental saber selecionar os documentos não tão confiáveis e eliminá-los do meu processamento, para processar mais os outros. É uma questão de saber lidar com conflito.
Você tem um exemplo prático?
N.M.: Essa foi uma experiência própria. Eu queria saber a previsão do tempo em Milão. Então eu fiz uma consulta no Google e recebi respostas de cinco sites diferentes (risos). A diferença da previsão de tempo era fenomenal! Um lugar tinha sol e no outro tinha chuva. Em dois sites havia seis graus de diferença na previsão do tempo. Então, como eu fiz uma consulta, a minha expectativa era de ver os sites e tomar a minha própria conclusão. Mas se a minha expectativa era de perguntar ao Google 'qual é a previsão de tempo para Milão?', eu quero ter uma resposta correta. Então como a Google vai saber quais desses sites é o mais confiável?
Isso não obrigaria a Google a ter acesso direto aos bancos de dados das empresas, além do perfil extenso do usuário, para poder responder melhor a essas questões?
N.M.: Obviamente, as respostas que damos já são baseadas em informações que já estão disponíveis na Internet, como por exemplo, a previsão de tempo e informações sobre vôos. Por quê? As empresas chegaram à conclusão, no passar dos anos, que era extremamente importante de disponibilizar essas informações para manter sua competitividade no mercado. Mas chegando no segundo ponto que você tocou, quanto mais a gente souber do usuário, melhor. Eu tenho um contexto muito maior, um histórico que eu poderia levar em consideração para responder a pergunta. Isso ocorre mesmo na nossa interação como seres humanos: se você conhece uma pessoa há vinte anos e ela te faz uma pergunta, você sabe exatamente o que ela está interessada em saber. Se você sabe que ela é friorenta ou é calorenta, então você pode dar respostas diferentes.
Mas então chegamos na questão sensível da proteção de dados pessoais, não?
N.M.: Se a Google sabe mais sobre o usuário, ela tem condições de melhor servi-lo. Mas existe toda a sensibilidade na área de privacidade. E a política da Google é que o usuário permita que a gente monte esse histórico. Trata-se de um "opt-in", ou seja, o usuário tem de dizer 'eu quero que vocês mantenham o histórico'. A pessoa que se registra ao entrar no site nos permite saber que ela havia feito outras consultas na semana passada, por exemplo.
Vocês cruzam os dados do usuário nos diferentes serviços que eles utilizam como "Google Mail", "Orkut" ou no motor de procura?
N.M.: Não. A Google tem uma sensibilidade muito grande nessa parte de privacidade. Não fazemos o cruzamento de dados recolhidos nos diferentes aplicativos, pois não temos confiança de que é isso exatamente que o usuário realmente gostaria. Hoje em dia, se você se registrou e está fazendo consultas, eu tenho condições de saber as consultas que você fez dentro daquela sessão e utilizo essa informação para tentar melhorar a resposta. Se o mesmo usuário se conectar em Orkut, o fato de que você possa ter feito dez consultas antes não é levado para o sistema de Orkut da Google como informação para aquele contexto.
Mas o cruzamento de todas essas informações não seria extremamente útil para poder delinear o perfil de um usuário?
N.M.: Do ponto de vista tecnológico sim, mas não temos certeza de que é isso que o usuário gostaria. Não sabemos se ele estaria confortável com esse tipo de atividade como permitir que os dados de diferentes aplicativos se tornem disponíveis para outros. Por isso não o fazemos. De qualquer maneira, não mantemos os dados por muito tempo. Depois de 18 meses o reconhecimento do usuário, do seu endereço IP nas consultas, é eliminado. Não tem histórico nenhum dele além de 18 meses.
Qual a importância das redes sociais para a Google? Você acredita que a Web 2.0 é realmente o futuro da rede?
N.M.: Isso é muito difícil de saber. Quem poderia imaginar, há dez anos, que a Internet ia ser o que é hoje. No momento essa é uma tendência bastante popular. Deixe-me dar um histórico para você entender porque esse fenômeno é tão interessante. Se você olhar o que aconteceu na área tecnológica nos últimos dez anos, ocorreu uma redução significativa no custo dos processadores, do arquivamento e das ferramentas para a criação de conteúdo. Há alguns anos, somente empresas tinham condições de criar uma página na Internet e começar a disponibilizar conteúdo para seus usuários. Tudo era muito caro. O custo de armazenamento, de processamento daqueles dados, exigia máquinas grandes. Hoje em dia, qualquer telefone celular tem uma câmara fotográfica. O preço de armazenamento é medido em centavos. Qualquer usuário do mundo tem a possibilidade de digitalizar uma imagem e armazenar. Ao mesmo tempo foram criadas ferramentas - a maior parte delas é de uso livre - que permitiu que esses usuários começassem a colocar seu conteúdo na rede.
Você definiria isso como uma nova revolução na Internet?
N.M.: Há dez ou quinze anos atrás, quando as empresas todas começaram a se lançar na web e colocar os dados delas e permitir que os usuários realizassem transações como comprar produtos e assim por diante, vimos uma revolução do ponto de vista empresarial. Agora estamos vendo exatamente a mesma revolução no nível dos indivíduos. As pessoas se sentem hoje em dia livres para se expressar, colocar suas imagens, torná-las acessíveis aos amigos e parentes que moram em outro país e permitir que eles se comuniquem entre si. Antigamente a comunicação existia em nível empresarial. Hoje em dia ela é extremamente barato utilizar e-mail, acessar blogs, etc. Os internet cafés existem em tudo quanto é lugar do mundo.
Mas na história da Internet sempre teve esses momentos de euforia. A questão não é saber o que virá depois?
N.M.: O que vai acontecer quando essa revolução se estabilizar? É difícil dizer. Eu acho que o que vai acontecer, com toda certeza, é uma democratização do acesso à Internet e também, podemos dizer, da possibilidade que as pessoas têm de se expressar.
E o que tange a Google nesse sentido?
N.M.: Como a missão da Google é organizar todas as informações do mundo, obviamente aquelas que estão sendo criadas dentro de um ambiente de redes sociais - onde você está interagindo com seus amigos, colocando suas imagens, escrevendo no chat - também são informações. E é claro que achamos importante poder organizá-las e torná-las disponíveis a qualquer pessoa. Se você tiver procurando imagens, é possível que elas estejam armazenadas dentro de um sistema de rede social. A estratégia da Google não é necessariamente competir com todos os sistemas embora tenhamos o Orkut, cujo sucesso na Índia e Brasil nos deixa orgulhosos. Porém existe a necessidade de permitir a compatibilidade e o transporte de dados entre elas.
Porém não existe o problema das diversas redes sociais estarem baseadas em plataformas técnicas completamente distintas?
N.M: Exatamente. Cada sistema de rede social é completamente diferente do outro. A estrutura interna do Orkut é completamente distinta do Facebook, que também é distinta do MySpace.
O projeto "OpenSocial" da Google, bastante falado na imprensa, não tem o objetivo de ser uma língua franca nessa área?
N.M.: O "OpenSocial" é uma plataforma que permite a troca de dados entre todos esses sistemas. Essa é uma tentativa de se criar uma norma, que permitiria qualquer usuário de interagir com esses sistemas e, provavelmente, as empresas de criarem aplicativos que teriam condições de rodar em qualquer um deles. Quais seriam os benefícios? Em primeiro lugar, continuar incentivando a inovação na Internet. Se existem dez ou vinte sistemas de rede social, uma empresa que teria uma idéia magnífica ao criar um novo aplicativo para redes sociais, só precisaria desenvolvê-lo uma vez. Ele rodaria então no Orkut, no Facebook e em qualquer outro sistema. Da mesma maneira, como hoje em dia as interfaces dos motores de busca são praticamente as mesmas, se você tem uma idéia de um aplicativo para rodar em cima de um sistema, com essa tecnologia ele teria condições de rodar na Google e em todos os outros. Esse é o primeiro objetivo.
Como o usuário da Google poderia aproveitar concretamente dessas plataformas únicas?
N.M.: A segunda grande vantagem é para o próprio usuário. Muitos deles utilizam mais do que uma rede social. Muitas vezes, eles têm um ambiente utilizado na área profissional e outros na área privada. Mas muitas vezes os contatos podem ser profissionais e privados ao mesmo tempo. Não seria então interessante para você permitir que esses dados sejam extraídos de um e colocados no outro, obviamente sob o controle pessoal? Um sistema aberto tornaria bastante fácil essa ação. Ou até mesmo se o usuário não estiver satisfeito com um sistema de rede social e queira utilizar uma outra, ele poderia retirar os seus dados, colocar em um outro sistema e continuar a utilizá-los.
Muito falado também é o projeto "Google Mobile". Como chefe de pesquisa na Europa, qual o seu papel nessa área que parece ser estratégica para a empresa?
N.M.: O "Google Mobile" é um projeto extremamente importante para nós. Grande parte do seu desenvolvimento ocorre na Europa. O centro de pesquisas de Londres é o centro de desenvolvimento principal da Google na área de telefonia celular. É um grupo que trabalha diretamente para mim. Por que ele é importante? Hoje em dia, para cada PC vendido no mercado, são vendidos três celulares. Se você pensar em países do Terceiro Mundo, a grande quantidade de usuários tem acesso à Internet através de celular e, provavelmente, nunca terão condições financeiras de comprar um PC, pelo menos no momento. A grande pergunta é que, mesmo se o preço dos PCs continuar a cair e se tornar acessível a todos, será que os usuários vão querer realmente utilizá-lo? Ou será que eles irão gostar tanto da interface do telefone celular, que mesmo o barateamento dos computadores não será um grande incentivo ao seu uso. A Google acha que o "Mobile" é uma grande possibilidade de fazer com que a web, as informações disponíveis na web, sejam acessíveis a qualquer usuário. Essa também é uma área extremamente importante.
Poderemos então começar a aposentar nossos computadores e passar só a utilizar o celular?
N.M.: Eu não diria necessariamente o fim do computador. Pelo menos hoje em dia, e talvez nos próximos dois ou três anos, eu não conseguiria imaginar abandonando o meu laptop por um celular num ambiente empresarial. Mas existe uma população enorme no mundo, que não terá acesso a um PCs nos próximos anos. Porém eles têm acesso ao celular.
A Google pensa em entrar no mercado como operadora de celulares?
N.M: A estratégia da Google é apenas permitir que os nossos programas possam rodar em qualquer celular. Queremos possibilitar que a experiência positiva que um usuário tem ao acessar os nossos serviços num PC, se repita no ambiente de celulares. Existem dois aspectos nessa estratégia: um é fazer que os nossos aplicativos rodem bem nos celulares. Um exemplo nesse sentido é o que ocorreu com o "iFone", onde os produtos da Google se transformaram numa "tetéia" nos aparelhos. A outra estratégia: como o mercado de celular não tem um padrão único fica extremamente difícil de inovar nessa área. Praticamente cada equipamento de celular tem o sistema operacional diferente ou plataforma de desenvolvimento de software diferente. Se eu sou uma empresa de desenvolvimento de software e tenho a idéia de criar um novo aplicativo de rede social para celular, vou ter de desenvolver aquele aplicativo quinze ou vinte vezes. O custo acaba se tornando proibitivo.
O "Android", uma sistema operacional recentemente anunciado pela Google, é a resposta a essa tentativa de se criar um padrão comum para celulares?
N.M.: A estratégia da Google com o "Android" é criar uma plataforma padrão de software que tenha condições de rodar em qualquer equipamento. Da mesma maneira que se criaram sistemas operacionais padrões como o Linux ou o Unix, que rodam em qualquer equipamento de hardware, o objetivo é criar uma plataforma padrão de software que rode em qualquer aparelho de celular. Com isso queremos permitir as empresas de desenvolver aplicativos só uma vez e que poderão rodar em qualquer sistema.
Para terminar, uma pergunta sensível: o "Google Docs", o serviço de processamento de textos ou tabelas online oferecido gratuitamente por vocês, seria uma forma de acabar com o monopólio da Microsoft?
N.M.: O objetivo da Google com o "Google Applications" é o que falei anteriormente. A missão da Google é organizar as informações no mundo e fazer com que elas se tornem acessíveis. Várias informações que existem no mundo são sistemas de processamentos de textos, imagens, tabelas de cálculo e assim por diante. Os aplicativos foram criados para ler e manipular esses dados. Então tivemos a idéia de rodar esses aplicativos numa arquitetura que chamamos de "cloud computing" (n.r: aplicações e os dados não ficam mais no computador local, mas sim na forma de uma 'nuvem' (cloud) em um sistema distante), de forma que, se você se conecta na Suíça, tem condições de acessar aqueles documentos.
Essa história parece bastante futurista, mas qual a utilização prática? Você também é um usuário do "Google Applications"?
N.M.: Se você está viajando no Brasil para visitar parentes, você tem condições de acessar exatamente os mesmos documentos. Esse serviço permite, dentre outros, que que você crie um calendário com todas as atividades. Assim você pode dizer para a mãe: 'quando eu estiver viajando, dê uma olhada no meu calendário para saber exatamente onde eu estou'. Isso é o que eu faço. Na minha conta particular de Gmail tenho um calendário que está disponível para a minha esposa, meus filhos, irmãos e a minha mãe, que estão espalhados por diferentes lugares do Brasil e do mundo. Eles sabem exatamente onde eu estou. Eles até podem saber que o Nelson não tem nenhuma atividade hoje à noite e que podem ligar para mim. Resumindo, o objetivo é fazer com que os dados estejam disponíveis para qualquer pessoa do mundo.
Mas se a Google oferece gratuitamente processamento de textos, calendário, tabelas e outros, para que continuar comprando os produtos da Microsoft?
N.M: Eu acho que vários dos produtos desenvolvidos pela Microsoft, produtos muito bons por sinal, foram criados para um ambiente empresarial. Se você pensar de uma forma geral, em todos os usuários da Internet, qual deles utiliza todas as ferramentas que estão disponíveis no Word ou no Excel? O objetivo da Google, pelo menos no momento, não é desenvolver o produto mais sofisticado de processamento de texto ou tabelas de cálculos. O nosso objetivo é simplesmente fazer com que a gente permita o acesso dos dados pelos usuários.
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