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Entrevista com vice-presidente do Google, Marissa Mayer

Entrevista com vice-presidente do Google, Marissa Mayer

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Nesta entrevista ao Jornal O Globo, Marissa Mayer, vice-presidente do Google, explica o início da empresa líder em buscas no mundo. Também faz projeções sobre o futuro da empresa.

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O GLOBO: Você participou da história do Google desde o começo. Qual o evento que teve maior impacto positivo para a empresa? Algo que venha imediatamente à sua lembrança.

MARISSA MAYER: É verdade, muitas vezes sou considerada a historiadora do Google. Uma coisa que marcou o início do Google foi o caso das etiquetas de bagagem.

No verão de 1999, lá pelo mês de julho, fazíamos apenas algumas centenas de milhares de buscas por dia. Naquele tempo tínhamos um departamento de marketing muito pequeno e ainda estávamos à procura de meios de divulgar o Google.

Achávamos que a ferramenta de busca era tão boa que acabaria se espalhando sozinha, sem grande esforço do marketing. Mas eles insistiram que precisávamos de uma estratégia e vieram com a idéia de criar etiquetas de bagagem com a logomarca do Google para ver se isso dava uma divulgada no serviço.

Todos os funcionários que saíam de férias naquele fim de ano recebiam um monte de etiquetas de bagagens para espalhar para a família, amigos, conhecidos e até desconhecidos nos aeroportos. Quanto mais divulgação melhor, diziam.

Incidentalmente, em dezembro, começamos a bater milhões de buscas. E os marcos de mais um milhão não paravam de ser batidos. No Natal já estávamos com cinco milhões de buscas por dia. Em janeiro de 2000, quando o pessoal começava a voltar dos feriados e fizemos as primeiras reuniões, já eram sete milhões de buscas diárias, o crescimento tinha sido surpreendente. E, é claro, apesar de todos sabermos que não tinha sido este o motivo, a turma do marketing dizia brincando que a explosão nos acessos tinha sido por causa das tais etiquetas de bagagem.

O GLOBO: Qual o impacto da constatação desse crescimento tão rápido?

MARISSA MAYER: Bem, o impacto foi que Sergey e Larry confirmaram sua idéia primordial de que o importante era focar na busca, torná-la realmente boa, fazer dela uma ferramenta comercial melhor do que todas as outras que já estavam no mercado naquela época. A idéia, que acabou se provando correta, era que, se a busca fosse poderosa, o tráfego começaria a crescer naturalmente, no boca a boca. E foi isso que aconteceu. A maré começou a mudar para o nosso lado.

Isso era o que eles dois vinham nos dizendo durante o primeiro ano ou ano e meio de vida da empresa para nos motivar. E o que eles previam se realizou, aconteceu mesmo.

O GLOBO: Que outras opções vocês avaliaram antes de apostar apenas na busca?

MARISSA MAYER: Bem, aquele tempo era exatamente o auge da bolha das empresas "ponto com". Estávamos avaliando várias outras possibilidades. Será que deveríamos ter informações de clima na home page do Google? Horóscopo? Email? Sim, nós pensamos nisso tudo. Mas Sergey e Larry acreditavam na busca pura. E, é claro, tínhamos fé nas etiquetas de bagagem (risos).

O GLOBO: Em termos da experiência do usuário, qual era o principal diferencial que manteria o Google no topo?

MARISSA MAYER: Bem, no início nosso foco era apenas na busca, mas com o tempo isso mudou. Hoje nós estamos apostando na inovação, em surpreender nossos usuários de tempos em tempos com novidades. Procuramos quais são os problemas grandes e importantes sobre os quais podemos trabalhar. Em quais deles podemos aplicar soluções realmente inovadoras?

Observe, por exemplo, que nós não oferecemos logo de cara uma solução para email. Havia um monte de maneiras fáceis de oferecer email mais cedo do que fizemos. Mas nós esperamos até que tivéssemos uma boa idéia. Notamos que os outros serviços não estavam oferecendo muito espaço para armazenamento - 4 MB era pouco, muito pouco. Com o nosso baixo custo de infra-estrutura, usando hardware barato, sentimos que poderíamos oferecer 1 GB de espaço para email.

Além disso, começamos a pensar que, em vez de as pessoas organizarem suas mensagens de webmail em pastas, porque não deixar tudo num lugar só e usar uma forte ferramenta de busca para achar as mensagens que queriam?

Pensamos também em implementar notícias e mapas, mas deixamos o tempo passar um pouco para que pudéssemos cultivar essas idéias e oferecer serviços realmente inovadores.

Com as notícias, no serviço Google News, foi também assim. Alguém da nossa equipe teve a idéia de agrupar as notícias por temas e tópicos, independentemente de país. E depois com os mapas, no Google Maps, veio a idéia de oferecer "drag and drop" (arrastar e soltar) como forma de visualizá-los, diferentemente do que já existia então na maneira de mostrar mapas online.

E foi assim que nós crescemos: abraçando problemas grandes e procurando soluções criativas para eles.

O GLOBO: Muitos usuários gostariam de poder formatar o disco rígido do zero e dar boot direto com alguma solução Google: um sistema operacional todinho de vocês. Algum plano de realizar o sonho dessa gente?

MARISSA MAYER: Não, nós não estamos construindo um sistema operacional. Sim, nós lançamos um navegador, o Chrome, mas isso não é um passo em direção a um sistema completo, ao contrário do que muita gente pensa.

O GLOBO: E quanto ao Chrome, qual foi a estratégia?

MARISSA MAYER: O Chrome é mais um exemplo de como nós focamos em um nicho, analisamos como é que poderíamos oferecer algo diferente nesse nicho e partimos para a criação. Analisamos esse espaço dos browsers em toda sua história de 15 anos, desde o Mosaic e o Netscape, que eram bastante eficientes e vimos que o próprio HTML cresceu e melhorou muito.

Mas nós optamos por construir um browser de código aberto. A linguagem HTML evoluiu bastante e os browsers lidam bem com ela. O ambiente WebKit é de código aberto e trata HTML muito bem. Nós fizemos apenas alguns ajustes em cima do WebKit.

Mas o que os navegadores não fazem direito? Eles não tratam bem JavaScript. É como algo enfiado à força dentro do browser, uma coisa que nunca foi realmente otimizada e que não funciona assim tão bem.

Mas o usuário precisa de JavaScript para suas aplicações web rodando em Ajax. Nós usamos Ajax em várias das nossas aplicações na web, como Gmail, Google Maps, Docs & Spreadsheets, Calendar e iGoogle. Então nós construímos do zero um interpretador de JavaScript, de maneira bem inovadora, e que, dependendo de como se faz a medição, pode ser 10, 20 e até 50 vezes mais rápido do que as outras máquinas JavaScript que existem por aí.

Outra coisa que os outros browsers já tinham é navagação por abas (tabs). O problema é que, quando um usuário tinha problemas com uma aba, isso travava o browser inteiro. Às vezes eram mais de dez abas abertas e, para retomar o trabalho daquele ponto, às vezes era preciso gastar até 15 minutos para recuperar todas as janelas abertas.

Foi por isso que nós projetamos o Chrome para ter cada aba funcionando como um processo independente. Se uma aba travar, o resto do browser continua rodando normalmente.

Sim, nós estamos investindo nesse browser novo, mas não temos nenhum plano de construir um sistema operacional.

O GLOBO: No seriado Star Trek, o capitão Kirk falava com o computador - essa era a interface dele com a máquina. Existe algum plano do Google de desenvolver uma interface em que o usuário informe suas palavras-chave para busca usando a voz e, depois, receba o resultado do Google também de forma falada?

MARISSA MAYER: Certamente que sim. Quando olhamos para o futuro das buscas, percebemos que muitas coisas ainda vão mudar. E essas mudanças vão afetar o que hoje chamamos "modo". Hoje, para fazer sua busca no Google, só existe basicamente um modo: você digita suas palavras-chave como texto convencional. Mas isso não vai ser assim para sempre.

Porque você não pode simplesmente fazer sua busca falando ao celular, ou falando para o computador de bordo que vai existir no seu carro? Porque não simplesmente fazer perguntas genéricas usando a sua voz? Vamos explorar todos esses diferentes modos e já estamos investindo em nossa ferramenta de reconhecimento de voz. Já identificamos os principais problemas nessa tecnologia e novamente vamos trazer inovações ao mercado.

Um exemplo disso é o nosso 1-800-GOOG-411 ou Google Voice Local Search, inaugurado em setembro de 2007, que funciona como um serviço de páginas amarelas em que o usuário faz sua busca por voz para obter informações em cidades nos EUA e no Canadá. Graças a esse serviço estamos aprendendo muito sobre a maneira com que as pessoas falam ao telefone, que sotaques utilizam, quais intonações etc.

O GLOBO: E quanto ao reconhecimento de pensamentos? Ainda é muito cedo para imaginar uma ferramenta que leia os pensamentos do usuário, reconheça palavras-chave para uma busca e devolva os resultados também em pensamentos inseridos na mente do usuário? É viagem demais ou vocês já estão pesquisando isso?

MARISSA MAYER: No começo da pesquisa de inteligência artificial em computadores nos anos 60, os cientistas tentaram ensinar lógica aos computadores. Só que, com o passar do tempo, ficou claro que a grande vantagem dos computadores era a velocidade de processamento, ou seja, a capacidade de processar grandes volumes de dados em pouco tempo. Com isso, as máquinas podem analisar todas as possibilidades de um tema em poucos segundos, em vez de seguirem um determinado caminho lógico fixo. Então ficamos sempre com duas abordagens possíveis em inteligência artificial. De um lado a lógica pura, de outro a força bruta computacional, algo que, para quem observa de fora, se parece com inteligência.

No Google, nós usamos isso. Por exemplo, se você digita simplesmente GM como argumento de busca, o site vai lhe devolver links que tenham a ver com a fabricante de automóveis General Motors. Mas se você digitar "GM foods" (foods = comidas), o site vai notar que você quer saber de comidas geneticamente modificadas (genetically modified foods) ou mesmo algo sobre a empresa alimentícia General Mills.

Diante de uma resposta diferenciada assim, o usuário pode achar que o Google é inteligente, mas a busca que nós fazemos aciona uma varredura bastante ampla e veloz em uma imensa massa de dados. Nossa base de informações é tão grande que fica parecendo que o resultado da busca originou-se na semântica das palavras fornecidas pelo usuário. Mas na verdade é só força bruta.

O GLOBO: A web não pára de crescer, ou seja, a teia de sites que a aranha do Google precisa percorrer aumenta cada vez mais. Existe um ponto de sobrecarga no sistema de vocês? Existe um limite além do qual o Google considera que não vale a pena ir na coleta de informações sobre a grande rede?

MARISSA MAYER: O lema do Google é organizar toda a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e utilizável. E quando dizemos "toda" queremos realmente dizer "toda". Além disso, quanto mais informações nós conseguimos coletar, melhor fica a qualidade da nossa busca. E isso faz sentido pois se não temos um banco de dados com as respostas, então não podemos responder às perguntas.

É por isso que estamos tão interessados em tornar online tanto conteúdo atualmente offline. Essa é a importância de nossa iniciativa com o Google Books Search e com o recentemente lançado Google Newspaper Archive. Também estamos nos empenhando em tornar online mapas, imagens de satélite, vídeos, estoques de lojas comerciais e muitas outras áreas que pretendemos abranger.

O GLOBO: Quando o Google coleta informações sobre a web ele está abastecendo a mente concreta dos internautas. E com relação às emoções? Existe alguma pesquisa da Google no sentido de atribuir emoções e sentimentos aos links de modo a expandir ainda mais a capacidade de busca do sistema?

MARISSA MAYER: Sim, é o que chamamos de busca universal, uma abordagem que lançamos experimentalmente em 2007. O objetivo é enriquecer nossa página de resultados de modo que, em vez de devolvermos 20 links azuis, agora algumas vezes mostramos uma imagem ou uma chamada de vídeo. Meu exemplo predileto é "como dar nó em uma gravata borboleta". Se antes você digitasse no Google "how to tie a bowtie", só receberia links azuis como resposta. Se digitar hoje verá imagens e vídeos como resposta, e é muito mais fácil aprender a dar esse nó vendo um vídeo do que lendo uma descrição textual.

Esse é o apelo emocional que pretendemos dar às nossas buscas. Muita gente já foi "salva" num momento de sufoco, quando era necessário dar um nó desse tipo. E muitos outros casos parecidos existem. Minha missão como vice-presidente da Google em busca e experiência do usuário é encontrar formas de deleitar nossos usuários usando os próprios resultados das buscas que eles fazem.

O GLOBO: E o famoso botão "Estou com sorte" (I'm feeling lucky) na home page do Google, qual é a dele?

MARISSA MAYER: Na verdade, pouca gente usa esse botão. Ele só faz abrir diretamente a página do primeiro link que o Google encontra para a busca solicitada. Mas quando perguntamos aos nossos usuários, eles dizem que não usam esse botão. Alguns nem sabem para que ele serve e, se pedimos a essas pessoas para tentar adivinhar do que se trata elas chutam que é alguma coisa relacionada a apostas ou jogo. Ou seja, eles desconhecem completamente o que faz o tal botão. Mas se perguntamos se eles querem que o tiremos da página, a resposta unânime é "não, por favor não".

Outra coisa que os usuários adoram é o "Goooooooogle" com dez "o"s ao final da página de resultados. E também adoram os Google Doodles, aquelas logomarcas comemorativas que colocamos no topo da página em ocasiões especiais.

E agora estamos também fazendo os temas artísticos para o iGoogle, aquelas manifestações artísticas que ficam no cabeçalho da página e que podem ser configuradas pelo usuário em "Adicione temas de artistas". Além disso estamos trazendo para a página do iGoogle marcas globalmente famosas. Nossa meta não é somente trazer coisas úteis por meio do Google, mas também fascinar as pessoas.

Nós queremos atingir também emocionalmente os nossos usuários pois para muitos deles o Google é algo que eles usam todo dia, quase como pasta de dente. Imagine se quando você pegasse sua pasta de dente pela manhã, o tubo de pasta dissesse a você alguma coisa interessante sobre as pessoas que trabalham na empresa que fabrica aquele produto. Ou algo interessante sobre a atualidade e a realidade do mundo.

Os usuários gostam da surpresa de abrir o Google e saber, olhando o Google Doodle, que, por exemplo, aquele dia é o primeiro dia da Primavera ou a data do centenário da criação do Prêmio Nobel. Esses marcos comemorativos de certo modo espelham a personalidade das pessoas que trabalham aqui no Google, gente que se interessa em saber que tal dia é o cinqüentenário da descoberta do DNA e coisas desse tipo. Isso cria uma certa conexão emocional entre o usuário e a equipe do Google.

O GLOBO: Os usuários do Google sentem que estão testemunhando uma revolução. Mas e você? Estando à frente desse movimento, como é sentir-se mudando a maneira como o mundo e o usuário comum lidam com buscas e com esse mundo de informações online?

MARISSA MAYER: Eu tenho um dos melhores empregos do mundo. Eu faria meu trabalho mesmo se não me pagassem. E quando eu acordo e penso em qual seria a melhor forma de aproveitar meu dia, a primeira resposta que me vem à mente é levantar e vir aqui para o Google para trabalhar. E tenho muito orgulho disso.

O Google mudou nossas vidas e tenho um exemplo disso olhando para a minha infância. Eu morava num bairro e tinha muitos coleguinhas no quarteirão, tipo uns 14, todos por volta dos cinco ou seis anos de idade. Jogávamos futebol americano, basquete e futebol. Um dia resolvemos jogar baseball. Mas éramos perfeccionistas demais e, no terreno grande em que jogávamos, quisemos construir um campo com as dimensões oficiais de baseball. E começou uma briga danada, pois não chegávamos a um consenso, ninguém sabia quais eram as medidas do campo em forma de diamante, nem as distâncias entre as bases. Era uma tarde magnífica e ninguém estava com paciência de ir pedir aos pais e que levasse alguns de nós à biblioteca local para consultar uma enciclopédia e descobrir as medidas exatas. No final, acabamos desistindo e fomos brincar de outra coisa.

Mas se fosse hoje, bastava uma das crianças entrar em casa, digitar algo no Google e em poucos minutos teria a resposta. Ou seja, o que há 20 anos seria uma busca que demoraria meia-hora, hoje seria questão de segundos, bastando digitar algumas palavras em um teclado.

Por isso, tenho muito orgulho do que o Google e as outras máquinas de busca fizeram para mudar essa realidade, provendo acesso fácil e rápido à informação.

Daqui para a frente o que queremos é aprimorar a nossa página de resultados. No caso da gravata borboleta, qual seria a página ideal de resultado da busca? Talvez um vídeo em tela cheia mostrando logo como se dá o tal nó. Ou talvez a página pudesse usar um pouco melhor o espaço da tela, em vez do que nós chamamos aqui de "o mar da brancura" - essa faixa em branco que fica do lado direito da tela.

Eu acredito que o melhor do Google ainda está por vir. Estamos trabalhando em várias idéias que certamente vão agradar muito nossos usuários, mas ainda vão surgir outras idéias ainda melhores aí pela frente.

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Comentários

2 pessoa(s) comentaram até agora

rodrigo scheibe leão (anônimo)

30/10/2008 - 23:52

Realmente essa história é muito legal e a perspectiva que isso nos traz também é muito interessante. Mesmo tendo de admitir que a tecnologia acabou com a privacidade humana então, vejamos a virtude nisto: Saber o que interessa para avançarmos no bem que essas soluções do google podem nos ajudar..

rodrigo scheibe leão (anônimo)

30/10/2008 - 23:53

Realmente essa história é muito legal e a perspectiva que isso nos traz também é muito interessante. Mesmo tendo de admitir que a tecnologia acabou com a privacidade humana então, vejamos a virtude nisto: Saber o que interessa para avançarmos no bem que essas soluções do google podem nos ajudar..

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